Entre o “eca” e o primeiro bocado: o desafio de provar comidas novas

Entenda por que tantas crianças recusam alimentos novos e descubra formas leves e eficazes de despertar curiosidade e confiança no paladar.

Você já se perguntou por que seu filho faz cara feia quando vê um alimento novo no prato? Ou por que ele prefere sempre a mesma comida? Calma, você não está sozinho. A maioria das crianças entre 2 e 5 anos passa por isso. Aqui no Clube da Saúde Infantil, explicamos por que o medo de comidas novas acontece e como ajudar seu pequeno a superá-lo.

O que é o medo de comida nova

O medo de experimentar alimentos diferentes tem um nome científico: neofobia alimentar. É quando a criança evita ou recusa comidas que nunca viu antes.

Isso não é birra ou teimosia — é uma resposta natural que faz parte do desenvolvimento infantil e aparece em muitas culturas ao redor do mundo.

Por que isso acontece: a proteção que vem de longe

O medo de comida nova é um reflexo herdado de nossos ancestrais. No passado, evitar alimentos desconhecidos ajudava a prevenir intoxicações e a garantir a sobrevivência. Esse “alarme interno” ainda existe no cérebro das crianças de hoje.

Em outras palavras, a relutância em aceitar novos alimentos é uma herança biológica — um mecanismo de defesa que, há milhares de anos, aumentou nossas chances de sobreviver.

Por que acontece mais na infância

Na primeira infância, o corpo e o cérebro ainda estão amadurecendo. O organismo infantil é mais vulnerável, e o cérebro reage com mais cautela diante do que é novo. É como se a criança tivesse um “guarda-costas interno” que prefere o que já é conhecido e seguro.

Como o cérebro da criança reage a comidas novas

As áreas envolvidas

Quando uma criança vê um alimento desconhecido, duas partes do cérebro entram em ação:

  • Amígdala: acende o sinal de alerta e ativa a desconfiança.
  • Córtex insular: analisa sabores e texturas.

Estudos de neuroimagem mostram que essas regiões ficam mais ativas diante de alimentos novos, o que explica a recusa inicial.

A influência dos sentidos

A visão, o olfato, o tato e até o som da mastigação participam da decisão. O cérebro avalia:

  • aparência e cor;
  • cheiro e textura;
  • barulho que o alimento faz ao ser mastigado.

Crianças com sentidos mais aguçados costumam sentir essa experiência de forma mais intensa, o que pode aumentar o medo. É como se elas tivessem “super poderes sensoriais”.

O desenvolvimento do paladar e do olfato na infância cria padrões que influenciam as preferências alimentares por toda a vida.

A boa notícia: o cérebro pode aprender

A infância é um período de grande plasticidade neural — ou seja, o cérebro está em constante aprendizado e adaptação. Isso significa que é possível treinar o cérebro para aceitar novos alimentos.

Como estimular o aprendizado alimentar

Expor a criança a novos alimentos de forma leve e repetida ajuda o cérebro a reconhecer que eles são seguros. Com o tempo, o medo diminui e o interesse aumenta. Experiências positivas com comida fortalecem conexões cerebrais associadas ao prazer e à curiosidade.

Dicas práticas para os pais

  • Coloque o alimento novo no prato, mesmo que a criança não coma.
  • Evite insistir — o importante é manter a exposição.
  • Seja exemplo: coma alimentos variados na frente dela.
  • Repita a oferta várias vezes — pode levar até dez tentativas.
  • Deixe o ambiente das refeições calmo e acolhedor.

Quando se preocupar

O medo de comida nova é considerado normal até os 5 anos. Mas procure o pediatra se:

  • a criança aceita apenas poucos tipos de alimentos;
  • há perda de peso ou dificuldade de crescimento;
  • ela recusa grupos inteiros de alimentos;
  • o comportamento interfere na rotina familiar.

Esses sinais podem indicar um quadro mais intenso, que precisa de orientação profissional.

Conclusão

O medo de comida nova é um instinto antigo e natural — o cérebro do seu filho está apenas tentando protegê-lo. Com paciência, repetição e experiências positivas, é possível ensinar a criança a confiar e se abrir para novos sabores.

Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que entender a ciência por trás do comportamento infantil ajuda os pais a agir com calma e empatia. Afinal, crescer com saúde é mais legal quando toda a família se alimenta com tranquilidade.


Referências

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