O começo de tudo: o papel das primeiras experiências no prazer de comer

Entenda como as primeiras experiências à mesa influenciam o paladar infantil e ajudam a construir prazer, confiança e curiosidade por novos alimentos.

Seu filho fecha a boca quando vê algo novo no prato? Calma! O medo de comida diferente, chamado neofobia alimentar, pode ser prevenido com atitudes simples no dia a dia. Neste guia do Clube da Saúde Infantil, você aprende como aproveitar a fase de 6 a 24 meses e criar um ambiente tranquilo para que a criança experimente de tudo. Vamos juntos?

O que é neofobia alimentar

Neofobia é quando a criança evita provar alimentos novos. Esse comportamento geralmente surge quando há pouca variedade de sabores e texturas no início da vida. A boa notícia é que dá para prevenir com rotina, paciência e estímulos positivos.

Por que começar cedo

• Dos 6 aos 24 meses, o paladar é altamente maleável.
• Bebês que têm contato repetido com um mesmo alimento apresentam menor risco de recusa alimentar nos anos seguintes.
• Oferecer alimentos variados desde cedo é uma recomendação oficial do Ministério da Saúde.

Três passos na introdução alimentar

1. Rotina previsível e surpresa controlada

Mantenha horários fixos. Coloque o alimento novo ao lado de algo que a criança já conhece e gosta. Isso traz segurança e curiosidade ao mesmo tempo.

2. Texturas escalonadas

Comece com purês lisos, depois passe para versões mais encorpadas e, por fim, pedacinhos. Essa transição ajuda a mastigação e reduz rejeições.

3. Exposição repetida sem pressão

Apresente o mesmo alimento de forma leve e constante. Ver, cheirar e tocar já contam como avanço. Evite frases como “se comer ganha sobremesa”. O convite deve ser tranquilo e encorajador.

Ambiente amigável à mesa

Envolver a criança na cozinha

Peça ajuda para lavar legumes ou misturar ingredientes. Participar do preparo desperta curiosidade e aumenta a chance de aceitação dos alimentos.

Dar o exemplo

Comer junto é fundamental. Refeições em família, mesmo que poucas vezes por semana, mostram à criança que provar novos alimentos é algo prazeroso e natural.

Regras claras e sem briga

Pais decidem o que, onde e quando servir. A criança decide se e quanto vai comer. Essa divisão de responsabilidades evita disputas e pressões desnecessárias.

Brincar com a comida pode

Transforme o ato de comer em um momento lúdico: hortinhas em vasos, “degustação às cegas” ou histórias com legumes ajudam a diminuir o medo e aumentar o interesse.

Passo a passo rápido: ciclo de cinco etapas

  1. Planejar: escolha um alimento de cada vez.
  2. Expor: coloque no prato, sem obrigar.
  3. Explorar: cheirar, tocar e lamber já são conquistas.
  4. Provar: ofereça pequenos pedaços ou inclua em receitas conhecidas.
  5. Repetir: apresente novamente por algumas semanas até que o alimento seja aceito.

Esse método ajuda a construir familiaridade e costuma gerar bons resultados em poucas semanas.

Quando procurar ajuda profissional

Procure um time com nutricionista, psicólogo e terapeuta ocupacional se perceber:
• Perda de peso significativa.
• Cardápio com menos de 20 alimentos.
• Recusa acompanhada de vômito ou engasgos frequentes.

Recursos úteis

• Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos – Ministério da Saúde.
• Aplicativos de diário alimentar infantil.
• Oficinas culinárias em unidades de atenção básica.
• Podcasts sobre alimentação positiva e linguagem simples à mesa.

Aqui no Clube da Saúde Infantil acreditamos que cada tentativa de novo sabor é uma vitória. Experimente as dicas e compartilhe como foi a experiência.

Conclusão

Com rotina, exemplo e muita paciência, é possível diminuir o medo de novos alimentos e ampliar o cardápio da criança. Comece cedo, torne o momento prazeroso e procure ajuda quando necessário. Crescer com saúde é mais legal!


Referências

  1. Birch, L. L.; Fisher, J. O. Development of eating behaviors among children and adolescents. Pediatrics, v. 101, n. 3 Pt 2, p. 539-549, 1998.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília, 2019.
  3. Coulthard, H.; Harris, G. Early intervention to prevent food fussiness: longitudinal associations from 6 months to 15 months. Appetite, v. 105, p. 188-194, 2016.
  4. Dovey, T. M. et al. Food neophobia and “picky/fussy” eating in children: a review. Appetite, v. 50, n. 2-3, p. 181-193, 2008.
  5. World Health Organization. Complementary feeding: report of the global consultation. Geneva, 2021.
  6. Cooke, L. J. et al. Eating for pleasure or profit: the effect of incentives on children’s enjoyment of vegetables.Psychological Science, v. 22, n. 2, p. 190-196, 2011.
  7. Fildes, A. et al. Parent-administered exposure to increase children’s vegetable acceptance: a randomized controlled trial. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, v. 114, n. 6, p. 881-888, 2014.
  8. Allirot, X.; Maiz, E.; Urdaneta, E. Child involvement in cooking process: a way to promote vegetable consumption?Appetite, v. 120, p. 114-122, 2018.
  9. Patrick, H.; Nicklas, T. A. A review of family and social determinants of children’s eating patterns and diet quality.Journal of the American College of Nutrition, v. 24, n. 2, p. 83-92, 2005.
  10. Mitchell, G. L. et al. Parental influences on children’s eating behaviour and characteristics of successful parent-focussed interventions. Appetite, v. 60, p. 85-94, 2013.
  11. Coulthard, H.; Sealy, A. Play with your food! Sensory play is associated with tasting of fruits and vegetables in preschool children. Appetite, v. 113, p. 84-90, 2017.
  12. Lopes, M. T. S. et al. Effectiveness of repeated exposure and nutrition education to increase acceptance of legumes in preschoolers: a cluster-randomized trial. Public Health Nutrition, v. 23, n. 10, p. 1712-1720, 2020.
  13. Bryant-Waugh, R. et al. Feeding and eating disorders in childhood. International Journal of Eating Disorders, v. 43, n. 2, p. 98-111, 2010.