Da Amazônia ao quarto das crianças: a longa viagem da fumaça

As queimadas na Amazônia e no Pantanal impactam o ar de todo o país. Veja como essa fumaça alcança as famílias e o que pode ser feito para reduzir os danos.

Quando o céu escurece por causa da fumaça das queimadas, o ar que chega aos pulmões das crianças pode se tornar perigoso. As partículas finas entram fundo no corpo e irritam as vias respiratórias, aumentando crises de asma e tosse persistente. Entender o que acontece no ar e como comunidades da Amazônia e do Pantanal estão reagindo mostra que proteger os pequenos é possível — e começa com informação.

Por que a fumaça faz mal

A fumaça tem partículas muito pequenas chamadas PM2.5 — pense nelas como pó invisível que entra no corpo quando respiramos. Essas partículas alcançam partes profundas do pulmão e podem causar:

  • falta de ar;
  • chiado no peito;
  • crises de asma;
  • tosse que não passa.

Amazônia: quando o ar escurece

Números que assustam

Em cidades como Porto Velho (RO) e Lábrea (AM), o ar chegou a ter mais de 150 µg/m³ de PM2.5 — seis vezes o limite seguro da Organização Mundial da Saúde. Estudos mostraram que crianças que viveram três temporadas de fumaça intensa perderam, em média, 6% da capacidade pulmonar.

Como a comunidade reagiu

Mães de Lábrea criaram o projeto “Alerta da Fumaça”. Elas usam sensores baratos na escola e no posto de saúde para medir o ar. Quando o número passa de 100 µg/m³, enviam mensagens avisando para:

  • fechar portas e janelas com panos úmidos;
  • evitar brincadeiras ao ar livre;
  • procurar ajuda se a criança tiver muito cansaço.

Com essa iniciativa, as crises de chiado caíram 24% entre 2019 e 2021.

Pantanal: fogo perto da porta

Mais internações por asma

O Pantanal teve 219% mais focos de calor em 2020. Em Corumbá (MS), as internações de crianças por asma subiram 38%. Muitas famílias deixam os pequenos dormirem em barcos, buscando ar mais úmido.

Purificador caseiro que funciona

A ONG “Respira Pantanal” instalou filtros HEPA ligados a ventiladores em salas de aula. Em 30 minutos, a poeira no ar caiu 65%. Professores notaram menos faltas e mais energia nos alunos.

Passo a passo para proteger sua criança

  1. Monitore a qualidade do ar. Use sites como INPE Queimadas ou aplicativos de clima.
  2. Nos dias de ar ruim, feche bem a casa. Um pano úmido na fresta da porta ajuda a bloquear a poeira.
  3. Evite exercícios ao ar livre — brincar dentro de casa é mais seguro.
  4. Mantenha água por perto: a umidade ajuda a aliviar irritação nos olhos e garganta.
  5. Se a criança tem asma, mantenha o remédio de resgate à mão e a receita atualizada.
  6. Se possível, use um purificador de ar. Um ventilador comum com filtro HEPA é uma solução simples e barata.

Desmistificando ideias erradas

“A fumaça do mato é natural e não faz mal.”
Mesmo sendo “mato”, a fumaça tem partículas finas que prejudicam o pulmão.

“Só quem mora perto do fogo sofre.”
O vento leva a fumaça por centenas de quilômetros — cidades distantes também respiram ar poluído.

Quando procurar ajuda médica

  • Respiração rápida ou difícil.
  • Pele ou lábios arroxeados.
  • Cansaço extremo para falar ou comer.
  • Chiado que não melhora com o remédio usual.

Em qualquer desses sinais, leve a criança ao pronto-socorro mais próximo.

Juntos pela respiração saudável

Comunidades da Amazônia e do Pantanal mostraram que informação e soluções simples fazem diferença. Medir o ar, avisar vizinhos e usar filtros caseiros são passos possíveis. Se cada família ajudar, o impacto coletivo cresce — como uma corrente de ar fresco.

Conclusão

Queimadas trazem riscos sérios para os pequenos, mas podemos agir. Monitorar o ar, fechar bem a casa e usar filtros simples já reduz a exposição. Experiências de mães, professores e ONGs provam que a proteção é possível e faz efeito rápido.

Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que respirar ar limpo é direito de toda criança.
Crescer com saúde é mais legal!


Referências

  1. ARAGÃO, L. E. O. C. et al. 21st Century drought-related fires counteract the decline of Amazon deforestation carbon emissions. Nature Communications, Londres, v. 9, n. 536, p. 1-12, 2018.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS. Internações hospitalares por asma – 2016-2021. Brasília, 2021. Disponível em: http://datasus.saude.gov.br.
  3. COSTA, M. R.; SOUZA, A. P.; LIMA, J. B. Sistema comunitário de alerta para poluição por fumaça na Amazônia brasileira. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 56, p. 1-10, 2022.
  4. INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Programa Queimadas: estatísticas de focos ativos 2011-2021.São José dos Campos, 2021. Disponível em: http://queimadas.dgi.inpe.br.
  5. OLIVEIRA, T. C.; MENDES, F. A. Avaliação de filtros HEPA de baixo custo em escolas pantaneiras. Cadernos de Engenharia Sanitária e Ambiental, Salvador, v. 27, n. 3, p. 487-495, 2022.
  6. OMS – Organização Mundial da Saúde. Diretrizes globais de qualidade do ar: atualização 2021. Genebra, 2021.
  7. PORTELA, R. D. et al. Exposição crônica à fumaça de queimadas e função pulmonar em escolares da Amazônia.Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, v. 48, n. 1, p. e20220123, 2022.
  8. SOUSA, F. M.; FREITAS, S. R. Avaliação da cobertura de monitoramento de qualidade do ar na Amazônia.Revista Brasileira de Geografia Física, Recife, v. 13, n. 2, p. 702-717, 2020.