Sinais silenciosos da desnutrição podem persistir mesmo após o tratamento
Descubra por que algumas sequelas da desnutrição infantil aparecem tardiamente e veja como o diagnóstico precoce garante recuperação completa.

Quando uma criança ganha peso de novo, parece que tudo ficou bem. Mas, muitas vezes, ainda existem “feridas invisíveis” no corpo e no cérebro. Neste post do Clube da Saúde Infantil, vamos mostrar como reconhecer essas sequelas da desnutrição infantil, por que o diagnóstico cedo faz diferença e quais passos simples podem ajudar cada família e profissional de saúde.
Por que olhar além do peso e da altura?
Mesmo com números normais na balança e na régua, a criança pode ter atrasos para falar, brincar ou aprender. É como ver só a ponta de um iceberg: grande parte do problema fica escondida. Estudos mostram que muitas crianças antes desnutridas, mas hoje “dentro da curva”, ainda têm dificuldade de atenção e memória.
Instrumentos comuns falham
Muitos testes usados nos postos de saúde foram criados para crianças bem nutridas. Por isso, podem “passar” quem ainda precisa de ajuda. Além disso, alguns instrumentos usam faixas de idade muito largas e não captam mudanças pequenas, mas importantes.
O que podemos fazer na rotina?
• Usar, além da medida de peso e altura, perguntas simples: “a criança já fala 20 palavras aos 2 anos?” ou “levanta do chão sozinha em poucos segundos?”.
• Registrar tudo no SISVAN sempre que possível.
• Procurar versões de testes em línguas locais quando necessário.
Novas ferramentas de laboratório

Hormônios de crescimento
Exames de sangue para GH e IGF-1 mostram quão rápido o corpo faz o “catch-up growth” — a recuperação do crescimento. Ainda são caros, mas ajudam a prever problemas.
Marcas no DNA e células de defesa
Mudanças pequenas no DNA, chamadas de metilação, podem indicar risco de obesidade no futuro. Já a contagem de células T-helper 17 aponta se o sistema de defesa voltou ao normal.
Rastreamento em duas etapas
Primeiro, faz-se teste simples no posto. Se aparecer algo diferente, coleta-se sangue para exames mais caros em laboratório de referência. É a mesma lógica do “teste do pezinho”.
Sinais de alerta que todo cuidador precisa saber
• Perímetro da cabeça não sobe enquanto peso e altura sobem.
• Crescimento em altura menor que 3 cm em 6 meses.
• Infecções (gripes ou diarreias) mais de duas vezes no trimestre.
• Pouco interesse em brincar ou olhar para pessoas.
Se notar qualquer sinal, procure equipe multiprofissional com pediatra, fonoaudiólogo e nutricionista. Intervenções antes dos 24 meses podem recuperar até 15 pontos em testes de linguagem.
Como o Brasil pode avançar
• Telemedicina: projetos no semiárido reduziram de 120 para 30 dias o tempo até a primeira consulta especializada.
• Prontuário eletrônico integrado: quando estados trocam dados, fica mais fácil seguir a criança ano a ano.
• Inteligência artificial: usando apenas 20 informações coletadas até 6 meses, modelos já estimam risco de déficit cognitivo aos 5 anos com alto índice de acerto.
Para saber mais sobre alimentação na infância, visite nosso guia completo de desnutrição infantil. Fontes confiáveis como o Ministério da Saúde e a UNICEF Brasil também oferecem materiais gratuitos.
Conclusão

Detectar cedo as sequelas da desnutrição infantil é chave para quebrar o ciclo de doença e pobreza. Com testes simples, atenção aos sinais e uso inteligente de novas tecnologias, podemos garantir que cada criança recupere não só o peso, mas também todo o seu potencial. Aqui no Clube da Saúde Infantil acreditamos que crescer com saúde é mais legal!
Referências
- World Health Organization. Guideline: Updates on the management of severe acute malnutrition in infants and children. Geneva: WHO, 2013.
- Grande, P.; Aburto, T.; Black, M. M. Nutritional assessment in infancy and childhood. Pediatrics, 146(6), e20200702, 2020.
- Hoddinott, J. et al. Long-term consequences of early childhood malnutrition. Oxford Economic Papers, 71(4), 862-884, 2019.
- Martins, V. J. et al. Stunting rates in Brazilian Amazon: new diagnostic approaches. Public Health Nutrition, 24(3), 459-468, 2021.
- Victora, C. G. et al. Maternal and child undernutrition: consequences for adult health and human capital. The Lancet, 371(9609), 340-357, 2008.
- Duarte, R. A. et al. Biomarkers of malnutrition and prediction of growth recovery: a systematic review. Nutrition Reviews, 79(5), 628-645, 2021.
- Abrantes, M. M. et al. Avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor em crianças desnutridas. Jornal de Pediatria, 93(2), 143-150, 2017.
- Ezeamuzie, O. et al. Immune recovery following nutritional rehabilitation in children: a longitudinal cohort study.Clinical Nutrition, 40(11), 5824-5831, 2021.
- UNICEF. The State of the World’s Children 2021. New York: United Nations Children’s Fund, 2021.
- Ministério da Saúde (BR). Manual para o monitoramento do crescimento e desenvolvimento infantil. Brasília, 2022.