Terapias celulares e edição genética abrem nova fronteira contra as alergias alimentares
A ciência começa a usar engenharia genética e manipulação celular para tornar o corpo mais tolerante e reduzir respostas alérgicas severas. Um futuro em construção.

Você ou seu filho tem alergia alimentar? Boa notícia: a ciência está criando tratamentos que vão além dos remédios comuns. Eles usam nossas próprias células e ferramentas para “corrigir” genes. Parece complicado, mas vamos explicar passo a passo. Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que informação simples pode mudar vidas!
Por que o corpo reage ao alimento?
Nosso sistema de defesa, o sistema imunológico, deveria reconhecer os alimentos como amigos. Mas, em quem tem alergia, ele se confunde e trata o alimento como um inimigo. O resultado pode ser desde coceira até crises graves de anafilaxia.
O papel dos “freios” naturais
No corpo, existem células chamadas T reguladoras (Tregs). Elas funcionam como árbitros de um jogo: controlam o exagero e mantêm a harmonia. Quando faltam Tregs, o sistema de defesa reage demais e as alergias aparecem com mais força.
Terapia celular: colocando novos árbitros em campo
Tregs autólogas
- O sangue do paciente é coletado e as Tregs são multiplicadas em laboratório.
- Depois, essas células “treinadas” voltam para o corpo.
- Em um estudo com alergia ao amendoim, 60% dos participantes tiveram pele menos reativa em seis meses.
- É como reforçar o time com jogadores reservas bem treinados.
CAR-Tregs: células com GPS
- As Tregs recebem um “GPS” (receptor CAR) que reconhece a proteína do alimento e vai direto ao ponto da inflamação.
- Em testes com animais, essas células aumentaram substâncias calmantes e evitaram anafilaxia.
- Imagine um entregador que sabe exatamente o endereço da crise.
Células-tronco mesenquimais (CTMs)
- Produzem substâncias que reduzem coceira e inflamação.
- Em estudos, crianças com dermatite atópica grave mostraram melhora significativa.
- O desafio ainda é definir a dose ideal e a origem da célula usada.
Células mieloides tolerogênicas
- Recebem o alimento e uma medicação especial em laboratório.
- Quando reinseridas no corpo, “ensinam” o sistema imune a ficar calmo.
- Os estudos ainda estão em fase inicial, mas os resultados são promissores.
Edição genética: consertando o problema na raiz
Desligando o interruptor da IgE
- A IgE é o anticorpo que dispara a reação alérgica.
- Usando CRISPR-Cas9, os cientistas “desligam” o gene que comanda essa resposta.
- Em testes com animais, os sintomas de alergia ao amendoim sumiram por até 20 semanas.
Editando células-mãe do sangue
- Genes ligados à inflamação, como IL-4 e IL-13, são modificados antes do transplante.
- O resultado: cerca de 80% das novas células não reagem mais de forma exagerada.
- É como trocar a fiação elétrica de uma casa para evitar curto-circuito.
Alimentos editados
- Pesquisadores removem partes do DNA de alimentos como amendoim e trigo que causam alergia.
- O valor nutricional é preservado, mas o risco de reação é reduzido.
- Por serem geneticamente modificados, precisam de rigorosa avaliação de segurança.
Desafios, custos e ética
- Um tratamento celular pode custar mais de US$ 250 mil.
- No Brasil, poucos centros estão prontos; os primeiros ensaios clínicos devem começar em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.
- Editar células reprodutivas (óvulos ou espermatozoides) é proibido por questões éticas, pois alteraria gerações futuras.
- A UNESCO recomenda prudência e forte regulamentação.
Próximos passos e combinações
- Misturar terapias celulares com imunoterapia oral (pequenas doses do alimento) pode reduzir custos e riscos.
- Segundo relatório da EAACI, os próximos cinco anos serão decisivos para consolidar essas abordagens.
- O futuro aponta para tratamentos combinados, mais acessíveis e personalizados.
Quando procurar ajuda
Se você ou seu filho tem alergia grave, converse com um alergista. Pergunte sobre novas pesquisas e estudos em andamento. No portal do Ministério da Saúde, você encontra informações sobre centros de referência e ensaios clínicos no país.
Conclusão

A ciência dá passos largos para que as alergias alimentares deixem de assustar famílias. As terapias celulares e a edição genética trazem esperança real, mesmo que ainda caras e limitadas a centros especializados.
Continue acompanhando o Clube da Saúde Infantil para saber quando essas novidades chegarão ao Brasil — porque crescer com saúde é mais legal!
Referências
- Arias JL, Wang A, Gurley W. Innovative CRISPR approaches for hypoallergenic crops. Plant Biotechnol J.2020;18(11):2285-2297.
- César FA, Vitale C. Induction of tolerogenic dendritic cells for food allergy: a murine study. Clin Immunol.2022;237:108987.
- EAACI. Cellular immunotherapies for food allergy: position paper. Zurich: European Academy of Allergy and Clinical Immunology; 2023.
- Garcia DR et al. Hematopoietic stem cell gene editing corrects food allergy in preclinical models. Nat Commun.2022;13:5412.
- Lee MW et al. Phase I trial of autologous regulatory T-cell therapy for peanut allergy. J Allergy Clin Immunol.2022;150(5):1205-1214.
- Nguyen AV, Chatila TA. CAR-Treg therapy for food allergy: preclinical progress. Immunology Today.2021;42(6):485-493.
- Park HJ et al. Mesenchymal stem cell therapy in intractable atopic dermatitis with food allergy. Allergy.2020;75(12):3279-3289.
- Smits M, Helm RM. Regulatory T cells in oral tolerance and food allergy. Curr Allergy Asthma Rep. 2021;21(3):1-10.
- Suh M et al. CRISPR-mediated IgE suppression reverses experimental food allergy. Sci Transl Med.2021;13(604):eabb7469.
- UNESCO. International Bioethics Committee: Report on genome editing and human health. Paris: UNESCO; 2020.