Biológicos infantis: quando a ciência avança, mas o sistema de saúde não acompanha
Entenda os obstáculos que atrasam a liberação de biológicos para crianças no Brasil — da burocracia às desigualdades regionais — e conheça caminhos para acelerar o início do tratamento.

Seu filho precisa de um remédio novo e moderno, mas ele ainda não está disponível no SUS? Essa situação é comum. Neste texto, explicamos por que os biológicos, medicamentos feitos com células vivas, demoram a chegar às crianças no Brasil e o que já está sendo feito para melhorar esse cenário.
Do aval internacional ao posto de saúde: a longa estrada
Quando agências internacionais como FDA e EMA aprovam um novo remédio pediátrico, começa uma espera que angustia muitas famílias brasileiras. Entre a aprovação externa e a oferta no SUS, passam-se anos. Em média, esse intervalo pode ultrapassar quatro anos.
Passo 1 – Registro na Anvisa
A Anvisa tem prazo legal para analisar remédios destinados a doenças graves. Embora o tempo pareça curto no papel, o processo real pode ser mais longo por causa das exigências técnicas.
Passo 2 – Avaliação da Conitec
Depois da aprovação, o remédio só entra no SUS se a Conitec comprovar que funciona e se o investimento é viável. Atualmente, uma parte significativa do orçamento já é destinada a biológicos de alto custo.
Passo 3 – Inclusão nos planos de saúde
Nos planos privados, o medicamento precisa entrar no Rol da ANS, atualizado periodicamente. Enquanto isso não acontece, muitas famílias pagam integralmente pelo tratamento, com valores que podem ser muito elevados.
Quando a Justiça vira caminho
Diante da demora, algumas famílias recorrem à Justiça para garantir o tratamento. O número de pedidos aumentou ao longo dos anos, causando impacto financeiro significativo. A medida resolve casos urgentes, mas pressiona orçamentos públicos e pode atrasar compras maiores que beneficiariam mais crianças.
Desigualdade regional
Regiões do Sul e Sudeste concentram a maior parte dos novos tratamentos. Mesmo quando há decisão favorável, estados com menos estrutura enfrentam dificuldades para aplicar e acompanhar terapias complexas.
Ideias que já dão certo
• Biossimilares: versões equivalentes dos biológicos originais, mais acessíveis e cada vez mais presentes nas compras públicas.
• Compra centralizada: o Ministério da Saúde negocia preços ao unir demandas de adultos e crianças.
• Compartilhamento de risco: acordos em que a empresa devolve parte do investimento se o remédio não funcionar.
• Telemonitoramento: consultas on-line e exames à distância ajudam a reduzir internações e mostram onde o investimento traz melhor resultado.
• Dados brasileiros de vida real: estudos nacionais reforçam a importância de medir não só a sobrevida, mas também a volta da criança à escola e à rotina.
O que ainda precisa mudar
Especialistas sugerem quatro avanços importantes:
- Atualizar protocolos do SUS com mais frequência em áreas que têm rápida evolução científica.
- Produzir biológicos no Brasil para reduzir a dependência externa.
- Fortalecer a análise de custo e benefício nos estados.
- Criar um observatório nacional de doenças reumáticas pediátricas para reunir dados de casos e resultados.
Perguntas que ouvimos muito
Por que o remédio existe lá fora, mas não aqui?
Ele precisa passar por etapas locais de análise de segurança, preço e impacto no orçamento.
Entrar na Justiça resolve?
Ajuda casos urgentes, mas não muda o sistema. Além disso, decisões judiciais podem atrasar compras maiores e prejudicar o abastecimento.
O que são biossimilares?
São versões altamente semelhantes aos biológicos originais, com a mesma eficácia e menor custo.
Derrubando mitos
Mito: Biossimilar é remédio inferior.
Fato: Ele passa pelos mesmos testes de qualidade e segurança.
Mito: Acionar a Justiça garante acesso imediato.
Fato: O processo pode demorar e não assegura disponibilidade contínua.
Conclusão

As novas terapias podem transformar a vida de milhares de crianças brasileiras, mas o acesso ainda é lento. Com biossimilares, compras inteligentes e processos mais ágeis, o caminho até esses remédios pode ficar mais rápido e justo. Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que informação clara é o primeiro passo para a mudança. Crescer com saúde é mais legal!
Referências
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- BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 205, de 28 dez. 2017. Diário Oficial da União, 29 dez. 2017.
- ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Acesso a medicamentos biológicos na América Latina. Washington, DC: OPAS, 2020.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Painel de preços de medicamentos 2022. Brasília, 2023.
- SANTOS, M. A.; SILVA, P. R. Judicialização da saúde no Brasil: análise de medicamentos biológicos 2011-2018. Revista de Saúde Pública, v. 55, 2021.
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