Miosite infantil: como os biológicos mudam o tratamento

Entenda de forma simples como funcionam os medicamentos biológicos contra a miosite infantil e quais são as novidades mais promissoras.

Ver seu filho sentir dor ou fraqueza nos músculos é assustador. A boa notícia é que a ciência trouxe remédios biológicos que podem mudar essa história. Neste texto, o Clube da Saúde Infantil explica como esses medicamentos funcionam e quais são as novas esperanças para a miosite em crianças.

O que é miosite infantil?

A miosite é uma inflamação no músculo. O tipo mais comum em crianças é a dermatomiosite juvenil, que causa fraqueza, dor e manchas roxas na pele. Sem tratamento adequado, pode deixar sequelas.

Por que falar em remédios biológicos?

Corticoides ainda são o primeiro passo do tratamento. Mas até 4 em cada 10 crianças não respondem bem ou apresentam efeitos colaterais intensos. É nesse ponto que entram os biológicos, medicamentos de laboratório que atacam apenas as partes do sistema de defesa que estão “confusas”.

Rituximabe: foco nas células B

  • O rituximabe reduz a ação das células B, que produzem anticorpos contra o músculo.
  • Em crianças resistentes a outros remédios, cerca de 6 em 10 melhoraram a força e reduziram a dose de corticoide pela metade em 6 meses.
  • Atenção: há risco de infecção por vírus como o herpes-zóster. Por isso, vacinas antes do uso são recomendadas.

Abatacepte e tocilizumabe: mais caminhos

  • Abatacepte bloqueia sinais que ativam linfócitos. Em estudo brasileiro, 7 em 10 crianças ganharam força muscular e metade cicatrizou feridas de pele.
  • Tocilizumabe age sobre a molécula IL-6, ligada à inflamação e a complicações no pulmão. Pode ser útil quando há risco de síndrome de ativação macrofágica.

Quando o médico pensa em biológico?

Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, os biológicos podem ser usados após 3 a 6 meses de tratamento padrão se a criança ainda tiver:

  • Fraqueza em progressão.
  • Feridas de pele dolorosas.
  • Comprometimento de órgãos, como pulmão ou coração.

Nesses casos, exames de sangue e de imagem ajudam a decidir a conduta.

Tratamentos que estão chegando

1. Inibidores de JAK

Pílulas como o tofacitinibe bloqueiam a via do interferon tipo I. Em estudo inicial, 4 de 6 crianças entraram em remissão em até 24 semanas.

2. Terapia celular

Células T reguladoras do próprio paciente são treinadas em laboratório para reduzir a inflamação. Ainda em fase experimental, mas com resultados promissores em animais.

3. Anticorpo anti-MDA5

Nova aposta para prevenir inflamação rápida no pulmão em crianças com anticorpo MDA5 positivo.

Perguntas que os pais costumam fazer

Biológico é quimioterapia?
Não. Ele age em pontos específicos do sistema imunológico, diferente da quimio, que afeta células em geral.

É caro?
Sim. O rituximabe pode custar mais de R$ 150 mil por ano. No SUS, o acesso depende de laudo especial.

Meu filho vai precisar de vacina?
Sim. É importante atualizar vacinas como gripe e varicela antes de começar o biológico.

Equívocos comuns

  • “Biológico cura de vez.” → Ele controla a doença, mas o acompanhamento continua.
  • “Só quem é grave usa.” → Casos moderados que não respondem a outros remédios também podem receber.
  • “Vai derrubar toda a imunidade.” → O alvo é específico, o que reduz efeitos gerais, mas o risco de infecção ainda existe.

Como ajudar em casa

  • Siga corretamente a receita médica.
  • Mantenha vacinas em dia.
  • Incentive atividade física leve, com orientação médica.
  • Observe sinais como febre ou tosse e comunique o pediatra.

Conclusão

A miosite infantil assusta, mas os remédios biológicos trouxeram esperança real de mais força, menos dor e melhor qualidade de vida. Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que informação clara ajuda famílias a decidir junto com o médico o melhor caminho. Crescer com saúde é mais legal!


Referências

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