Dopamina em excesso, atenção em falta: o preço oculto das telas para as crianças
Saiba por que as telas mexem com dopamina e atenção, aumentando o risco de vício digital nas crianças — e o que fazer em casa.

Você já percebeu como é difícil tirar o celular ou tablet das mãos do seu filho? Não é birra nem falta de educação. A ciência mostra que existe uma explicação real para isso: as telas mexem com o cérebro das crianças de um jeito muito especial.
Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que entender como isso funciona é o primeiro passo para proteger nossos pequenos. Vamos descobrir juntos o que acontece na cabecinha deles quando usam dispositivos digitais.
O que acontece no cérebro da criança com as telas
Quando uma criança usa celular, tablet ou computador, seu cérebro libera uma substância chamada dopamina. Pense nela como o combustível da felicidade – é ela que faz a gente se sentir bem.
O problema é que o cérebro das crianças produz muito mais dessa substância do que o dos adultos, chegando a até 50% a mais. É como se o cérebro infantil fosse um motor mais potente que reage com mais força ao mesmo estímulo.
Por que as crianças sentem mais prazer com as telas
O cérebro das crianças ainda está em formação, como uma casa em construção. As partes que controlam impulsos e emoções ainda não estão prontas. Por isso, elas sentem o prazer das telas de forma muito mais intensa que os adultos.
Essa área do cérebro que sente prazer se chama núcleo accumbens. Quando ativada pelas telas, envia sinais para o resto do cérebro dizendo: “Isso é muito bom! Quero mais!”
Apps são feitos para viciar (e isso não é acidente)
Muitos aplicativos e jogos são criados para prender a atenção. As empresas estudam o funcionamento do cérebro e usam esse conhecimento para manter o usuário conectado.
O truque dos prêmios aleatórios
Os apps usam uma técnica chamada recompensa variável, semelhante às máquinas caça-níqueis: você nunca sabe quando vai ganhar algo. Pode ser um like, uma fase nova, um prêmio no jogo.
Essa imprevisibilidade faz o cérebro liberar dopamina por muito tempo, mantendo a criança grudada na tela. É o mesmo sistema usado em cassinos, mas adaptado para crianças.
Como identificar esses truques
Observe se o app que seu filho usa tem:
- Notificações constantes.
- Prêmios que aparecem de vez em quando.
- Contadores regressivos (“só mais 2 horas para ganhar”).
- Convites para voltar todos os dias.
Como as telas mudam o cérebro em desenvolvimento

O cérebro das crianças tem uma característica chamada neuroplasticidade. É como uma massa de modelar que pode ser moldada. Tudo o que a criança faz muito ensina o cérebro a priorizar aquela atividade.
O problema do uso excessivo
Quando uma criança passa tempo demais nas telas, o cérebro aprende que isso é essencial. As conexões neurais ficam mais fortes para o digital e mais fracas para outras atividades.
Estudos indicam que crianças com uso excessivo de telas podem ter dificuldade em:
- Prestar atenção em uma única atividade.
- Controlar impulsos.
- Lidar com emoções.
- Se relacionar com outras pessoas.
Sinais de que o cérebro está sendo afetado
Fique atento se seu filho:
- Fica muito irritado ao interromper o uso de telas.
- Não consegue se concentrar em outras atividades.
- Perde interesse em brincar de outras coisas.
- Tem dificuldade para dormir.
- Fica ansioso sem acesso aos dispositivos.
Existe solução?
A boa notícia é que o cérebro das crianças também é capaz de se recuperar. A mesma neuroplasticidade que pode gerar problemas também ajuda na adaptação positiva.
Dicas para proteger o cérebro do seu filho
- Estabeleça limites claros: defina horários específicos para uso de telas.
- Crie intervalos: a cada 30 minutos de tela, faça uma pausa de 10 minutos.
- Ofereça alternativas divertidas: atividades físicas, artes e música.
- Seja exemplo: mostre que você também consegue ficar sem o celular.
- Explique o porquê: crianças entendem mais do que imaginamos.
Quando procurar ajuda profissional
Se mesmo com essas medidas seu filho continuar apresentando sinais de dependência digital, procure ajuda de um pediatra ou psicólogo infantil. Esses profissionais podem orientar estratégias específicas para sua família.
Conclusão

Entender como as telas afetam o cérebro das crianças não significa que devemos proibir totalmente a tecnologia. O objetivo é usar esse conhecimento para proteger nossos pequenos e ensinar um uso saudável.
O cérebro infantil está sempre aprendendo e se adaptando. Com orientação adequada e limites claros, podemos ajudar nossas crianças a desenvolver uma relação equilibrada com a tecnologia.
Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que crescer com saúde é mais legal – e isso inclui cuidar também da saúde digital.
Referências
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- Takeuchi H, Taki Y, Asano K, Asano M, Sassa Y, Yokota S, et al. Impact of frequency of internet use on development of brain structures and verbal intelligence: Longitudinal analyses. Hum Brain Mapp. 2018;39(11):4471-4479.