Voltar sim, mas sem medo: estratégias para um retorno escolar mais leve e seguro
Descubra atitudes simples que ajudam crianças com condições de saúde a voltarem à escola com segurança, menos medo e mais autonomia

Voltar às aulas já é um desafio para muitas crianças. Quando existe uma doença crônica, como asma ou diabetes tipo 1, o coração dos pais bate ainda mais forte. A boa notícia é que pequenas ações antes, durante e depois do primeiro dia de aula diminuem o medo e ajudam no controle da saúde.
Por que o medo dos pais afeta o filho
Quando os pais mostram muita preocupação, a criança entende a escola como um lugar perigoso. Esse “contágio do medo” aumenta o hormônio do estresse (cortisol) e pode piorar a asma ou a glicemia. Estudos mostram que filhos de pais ansiosos tiveram quase o dobro de queixas de dor de barriga e dor de cabeça na primeira semana de aula.
Três passos para um retorno tranquilo
1. Preparação antes das aulas
- Visite a escola. Mostre onde ficam a enfermaria, o inalador ou o kit de insulina.
- Faça “mini” separações em casa. Deixe a criança brincar em outro cômodo por alguns minutos e aumente o tempo aos poucos.
- Converse sobre habilidades, não sobre medo. Pergunte: “O que você faz se sentir um chiado?” em vez de “Tenho medo de uma crise”.
2. Monitoramento com hora marcada
Combine um horário fixo, por exemplo depois do almoço, para saber da glicemia ou do uso do inalador. Assim, evite ligações a todo momento e deixe a criança focar na aula.
3. Reuniões de revisão
Uma conversa mensal entre pais, escola e a própria criança ajuda a ajustar doses, celebrar conquistas e reforçar a autoconfiança.
Quando buscar ajuda profissional

Se, mesmo com esses passos, o medo continuar forte, a escola pode aplicar um questionário rápido (SCARED). Pontuação alta indica a necessidade de terapia cognitivo-comportamental (TCC). Em apenas seis a oito sessões, mais de 70% das crianças melhoram.
O que a lei brasileira garante
A Lei 13.722/2018 obriga as escolas a terem funcionários treinados em primeiros socorros, como identificar uma crise de asma ou hipoglicemia. Mesmo assim, é dever da família entregar:
- Plano de cuidados por escrito.
- Prescrição médica atualizada.
- Telefones de emergência.
Escolas com protocolos claros reduzem faltas por saúde em 35% e crises de ansiedade em 42%.
Dúvidas comuns
E se meu filho esquecer a insulina?
Deixe um kit reserva na enfermaria e alerte a professora sobre sinais de hipoglicemia.
Posso ligar a qualquer hora?
Prefira o horário combinado. Ligue antes apenas em caso de emergência.
Meu filho diz que dói tudo antes da aula. É fantasia?
Não. Dor de barriga ou cabeça podem ser sinais reais de ansiedade. Use os três passos e, se preciso, procure ajuda profissional.
Equívocos que precisamos evitar
- “Quanto mais eu cuido, melhor ele fica.” – Cuidado em excesso pode passar a ideia de que a criança é incapaz.
- “Ele vai superar sozinho.” – Ansiedade alta não some sem orientação. Ferramentas como TCC são eficazes.
Conclusão

Controlar a ansiedade dos pais é o primeiro passo para controlar a ansiedade da criança. Visitar a escola, combinar horários de contato e revisar metas todo mês criam uma rede de segurança. Assim, meninos e meninas com asma ou diabetes ganham autonomia, aprendem melhor e vivem a infância com mais alegria. Crescer com saúde é mais legal!
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