Por que a ansiedade é mais intensa em crianças com doenças crônicas?

Descubra por que crianças com doenças crônicas tendem a sentir mais ansiedade e veja como escola e família podem agir juntas para reduzir o impacto.

Você já ouviu seu filho dizer “não quero ficar longe de você” e viu isso virar choro, falta de ar ou dor de barriga? Esse medo forte de ficar separado dos pais chama-se ansiedade de separação. Em crianças com asma, diabetes ou artrite, o problema pode aparecer com mais força. Estudos mostram caminhos seguros e eficazes. Informação clara é o primeiro passo para crescer com saúde.

O que é ansiedade de separação

Ansiedade de separação é um medo intenso de ficar longe da pessoa que cuida da criança. Não é “manha”. O corpo realmente reage: coração acelera, suor nas mãos, dor de barriga.

Por que é mais forte em crianças com doenças crônicas

  • Medo de ter uma crise de asma ou hipoglicemia longe dos pais.
  • Pais, professores e até médicos, às vezes, protegem demais, fazendo a criança duvidar da própria capacidade.

Tratamentos que funcionam de verdade

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): passo a passo

  1. Psicoeducação: explicar, com palavras simples, o que é ansiedade e como ela pode piorar a doença.
  2. Reestruturação de pensamentos: trocar “Vou passar mal sem a mamãe” por “Posso me cuidar e chamar ajuda se precisar”.
  3. Exposição gradual: ficar alguns minutos longe dos pais em casa, depois na escola, até chegar ao dia todo.
  4. Treinamento dos pais: aprender a encorajar, não a salvar de todo pequeno desconforto.

Resultados: após 12 sessões semanais, as crianças tiveram 45% menos sintomas de ansiedade; grupo sem TCC melhorou só 12%. Crianças asmáticas fizeram menos visitas ao pronto-socorro e assopraram melhor no teste de sopro (VEF1). Em diabéticos, a hemoglobina glicada caiu e o controle de insulina melhorou.

Técnicas que somam força: mindfulness, relaxamento e dessensibilização

  • Mindfulness: pequenos exercícios de atenção na respiração, como “sentir o ar entrar e sair como uma onda”. Em 8 semanas, o cortisol caiu 18% em crianças com asma.
  • Relaxamento muscular: contrair e soltar grupos de músculos, como “apertar a mão como se segurasse uma laranja e soltar”. Após 4 semanas, crianças com artrite sentiram menos dor.
  • Dessensibilização sistemática: visitar a escola fora do horário, depois assistir a uma aula com o cuidador, até ficar todo o período sozinha.

Atendimento individual, em grupo ou on-line

  • Individual: maior efeito, porém custa mais.
  • Grupo: efeito bom e troca de experiências entre crianças.
  • On-line: tão eficiente quanto presencial, ótimo para quem mora longe ou precisa evitar infecções.

Papel dos pais e da escola

  • Pais: evitar frases como “Se precisar, ligo para a professora toda hora”. Combinar um “plano de crise” simples: medir glicemia, usar inalador, chamar a enfermaria.
  • Escola: professores treinados a notar sinais de ansiedade, como suor ou pedidos frequentes de ir à enfermaria. Técnicas rápidas de “grounding” ajudam a acalmar, por exemplo: “conte cinco objetos azuis na sala”.

Como medir o sucesso do tratamento

  • Questionários de ansiedade, como SCARED, a cada três meses.
  • Exames da doença: VEF1 para asma, HbA1c para diabetes, exames de inflamação na artrite. Quando mente e corpo melhoram juntos, o cuidado está no caminho certo.

Perguntas frequentes

Meu filho vai “crescer” da ansiedade?
Com intervenção cedo e correta, a maioria melhora muito.

Preciso tirar meu filho da escola?
Não. O objetivo é justamente voltar ou ficar na escola com segurança.

E se não houver psicólogo na cidade?
A TCC on-line mostrou bons resultados. Vale procurar serviços de teleatendimento.

Equívocos comuns

  • “Ansiedade é falta de disciplina.” Não, é um transtorno reconhecido pela ciência.
  • “Doença crônica impede independência.” O tratamento certo ajuda a criança a cuidar de si e ser mais autônoma.

Conclusão

Ansiedade de separação não precisa comandar a rotina. TCC, mindfulness e apoio de família e escola formam um time vencedor, reduzindo crises de ansiedade e melhorando a saúde física. Siga as dicas, converse com profissionais e lembre: crescer com saúde é mais legal!


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