Gravidez em risco invisível: exames revelam químicos que chegam até o bebê
Biomarcadores ajudam a identificar substâncias tóxicas no corpo da gestante e orientam estratégias de proteção para reduzir riscos ao bebê.

Você sabia que algumas substâncias do ambiente podem atravessar a barriga da mamãe e chegar ao bebê? Aqui no Clube da Saúde Infantil, queremos ajudar você a medir, entender e reduzir esses riscos. Vamos explicar, em linguagem simples, quais exames existem, quando fazer e como usar as informações para garantir uma gestação mais segura.
Biomarcadores: o que são e por que importam?
Biomarcadores são sinais no corpo que indicam contato com substâncias químicas. É como ter um “detector” dentro da corrente sanguínea. Na gestação, ajudam médicos e famílias a identificar a presença de metais, pesticidas ou plásticos no organismo.
Principais exames usados no Brasil
Sangue da mãe ou do cordão
Mostra contato recente com metais como chumbo e mercúrio, além de pesticidas conhecidos como PFAS. Em comunidades da Amazônia, uma em cada quatro gestantes apresentou mercúrio acima de 10 µg/L.
Urina
É indicada para substâncias que saem rápido do corpo, como glifosato e ftalatos. Estudo em Ribeirão Preto encontrou glifosato em 68% das amostras de gestantes que vivem em áreas rurais.
Cabelo
Permite avaliar exposição de longo prazo a metais, como o mercúrio. Níveis acima de 6 µg/g em mechas foram associados a maior risco de baixo peso ao nascer.
Quando fazer os testes? Três momentos-chave
- Período da concepção (até 8 semanas) – fase de formação dos órgãos do bebê.
- 20 a 24 semanas – período de maior troca de nutrientes (e também de químicos) entre mãe e bebê.
- Terceiro trimestre – fase em que o corpo da mãe libera mais gordura, e com ela substâncias armazenadas.
Alguns programas públicos de saúde já incluem exames de metais na 24ª semana do pré-natal.
Como entender os resultados?
Um número isolado pode assustar. Por isso, é importante considerar:
- Valor de referência: por exemplo, para chumbo, a Fiocruz recomenda menos de 5 µg/dL.
- História de vida: uma cabeleireira que manipula formol pode ter picos temporários de ácido fórmico.
- Sinais de saúde: pressão alta ou bebê com baixo crescimento pedem atenção mesmo em valores próximos ao limite.
Desafios de acesso
Exames para metais pesados já estão disponíveis em 17 laboratórios públicos do país. Porém, testes para PFAS ainda são caros e pouco acessíveis, chegando a custar cerca de R$ 600. A falta de kits em algumas Unidades Básicas de Saúde reforça desigualdades regionais.
Tendências futuras: exames cada vez mais completos
Novas técnicas conhecidas como “ômicas” conseguem identificar mais de 1.500 moléculas em apenas algumas gotas de sangue. Pesquisas apontam que fatores genéticos explicam por que algumas mães acumulam mais tóxicos que outras. A Anvisa estuda incluir PFAS na lista de substâncias prioritárias até 2025, e startups já testam kits caseiros de BPA que podem ser lidos pelo celular.
Dicas práticas para grávidas
- Conversar com o médico sobre exames de sangue, urina ou cabelo, especialmente em áreas industriais ou rurais.
- Lavar bem frutas e verduras para reduzir pesticidas.
- Evitar peixes grandes e predadores em locais com alto risco de mercúrio.
- Usar recipientes de vidro para alimentos quentes, em vez de plásticos.
- Participar de programas públicos de pré-natal, que podem oferecer exames gratuitos.
Conclusão

Identificar substâncias perigosas no corpo da gestante é proteger o bebê ainda durante a gestação. Com exames adequados, em momentos certos e com interpretação cuidadosa, é possível reduzir riscos e garantir um início de vida mais saudável. No Clube da Saúde Infantil, acreditamos que crescer com saúde é mais legal!
Referências
- Faial KF, et al. Mercury exposure in pregnant women from Amazon riverside communities. Environ Res. 2021;194:110664.
- Peres F, et al. Urinary glyphosate levels among pregnant women living in agricultural areas of Brazil. Int J Hyg Environ Health. 2023;252:113474.
- Passos CJ, et al. Mercury hair levels and associated factors in Amazonian mothers and newborns. Cien Saude Colet. 2022;27(2):537-548.
- São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Protocolo Assistencial: Pré-natal de Risco Habitual. São Paulo; 2022.
- Fiocruz. Valores de referência biomonitoramento humano: metais pesados. Rio de Janeiro; 2020.
- Silva LS, Torres JP, Meire RO. Availability of PFAS analysis in Brazilian clinical laboratories. Rev Saude Publica. 2023;57:46.
- Patel CJ, et al. The pregnancy exposome: identification of molecular signatures. Nat Commun. 2022;13(1):3872.
- Gonçalves C, et al. GST polymorphisms modulate pesticide bioaccumulation during pregnancy. Environ Toxicol Pharmacol. 2023;96:104010.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Relatório de Análise de Impacto Regulatório sobre PFAS. Brasília; 2023.