Desigualdade alimentar: ameaça crescente ao fígado das crianças

Aprenda como a má distribuição de comida de qualidade favorece o consumo de ultraprocessados e conheça soluções acessíveis para proteger as crianças.

Você sabia que o fígado da criança pode contar a história da desigualdade no Brasil? Quando falta dinheiro ou mercado perto de casa, a comida saudável some do prato e o “fígado gorduroso” aparece cedo. Aqui no Clube da Saúde Infantil, mostramos como isso acontece e o que dá para fazer já.

Por que falar do fígado das crianças?

O nome complicado é esteatose hepática não alcoólica. Nós vamos chamar de “fígado gorduroso”. Ele surge quando muita gordura invade o fígado. Estudos mostram que crianças em lares com pouca comida ou só comida barata têm até 2,5 vezes mais risco de ficar com o fígado gorduroso.

Quando o bolso decide o cardápio

  • Uma caloria de biscoito recheado custa em média 60% menos que a caloria de fruta.
  • Em 2022, 33 milhões de brasileiros sentiram falta de comida.
  • Resultado: quase 40% das calorias de crianças de 5 a 9 anos vêm de ultraprocessados.

É como escolher entre um brinquedo caro e um barato: quem tem pouco dinheiro leva o barato, mesmo que quebre rápido. O barato, no caso, quebra a saúde.

O bairro muda o que vai no prato

Alguns lugares são verdadeiros “desertos alimentares”: não há feira ou mercado de frutas num raio fácil de caminhada. Em capitais como Belém e Salvador, crianças que vivem longe de feiras têm o dobro de chance de sobrepeso. Sem banana por perto, entra o salgadinho.

A escola como aliada

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) manda comprar pelo menos 30% da merenda de agricultores locais. Escolas que cumprem a regra reduzem em 12% o refrigerante entre os pequenos. Quando a cantina vende só ultraprocessado, o fígado infantil paga a conta.

Feiras móveis e sacolões populares

Belo Horizonte criou 74 pontos de hortifruti em regiões carentes e aumentou em 28% a compra de verduras. Recife e Manaus fazem parecido: negociam preços baixos direto com produtores e repassam para a população.

Renda + educação alimentar = prato colorido

Famílias que recebem o Auxílio Brasil compram 18% mais hortaliças. Mas o aumento maior aconteceu onde também houve orientação nutricional no posto de saúde. Ou seja, só dinheiro não basta; é preciso saber como gastar.

Impostos que protegem a saúde

Um imposto de 20% em refrigerantes poderia evitar 120 mil novos casos de fígado gorduroso infantil em dez anos. Ao mesmo tempo, tirar impostos de legumes deixaria o preço mais baixo para todos.

O que você pode fazer hoje

  1. Procure feiras livres ou sacolões da prefeitura perto de casa.
  2. Troque refrigerante por água saborizada com fruta.
  3. Ensine a criança a gostar de verduras: use cores, faça desenhos no prato.
  4. Se a escola vender muito lanche industrializado, converse com a direção.

Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que cada passo conta. Mesmo mudanças pequenas, como levar fruta de lanche, protegem o fígado agora e no futuro.

Conclusão

O fígado gorduroso infantil nasce da soma de comida barata, pouca renda e pouca oferta de alimentos frescos. Mas políticas públicas, escolas atentas e famílias informadas podem virar esse jogo. Lembre: crescer com saúde é mais legal!


Referências

  1. Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar. Campinas, 2022.
  2. Schwimmer JB, et al. Association of Food Insecurity With Nonalcoholic Fatty Liver Disease in Children. Hepatology. 2021;74(5):1713-1721.
  3. Claro RM, et al. Preço dos alimentos no Brasil: 1995-2017. Public Health Nutr. 2019;22(18):3295-3306.
  4. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. POF 2017-2018: Consumo Alimentar. Rio de Janeiro: IBGE; 2020.
  5. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas dos Desertos Alimentares no Brasil. Brasília: IPEA; 2021.
  6. Reis LC, et al. Food Environment and Childhood Obesity in Brazilian Capitals. Rev Saude Publica. 2020;54:44.
  7. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Relatório de Monitoramento do PNAE 2022. Brasília: FNDE; 2023.
  8. Prefeitura de Belo Horizonte. Programa Sacolão BH: Avaliação de Impacto 2019-2022. 2022.
  9. Campello T, Gentil D. Quando a Renda Chega à Mesa: Auxílio Brasil e Consumo Alimentar. IPEA, Texto para Discussão 2966. 2023.
  10. Carvalho M, et al. Health impact of a tax on sugar-sweetened beverages in Brazil. Fiocruz Policy Brief. 2021.