Legado da escassez: como a fome materna afeta o bebê
Descubra como a desnutrição materna deixa marcas que atravessam o tempo e veja como garantir uma gestação saudável protege o futuro das crianças.

Você sabia que a alimentação da gestante pode marcar o DNA do bebê para sempre? Isso mesmo! Quando falta comida na barriga da mãe, o corpo do bebê aprende a “economizar” energia. Parece bom, mas não é. Esse “modo economia” pode trazer doenças e dificuldades na escola lá na frente. Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que crescer com saúde começa antes mesmo do nascimento. Vamos entender como?
O que acontece no útero?
Quando a mãe passa fome, o bebê recebe menos nutrientes. O corpo dele responde de três jeitos:
- Ajusta os genes com “etiquetas químicas”, um processo chamado metilação.
- Muda o trabalho do cérebro, como se apertasse um botão de “modo economia”.
- Reduz o tamanho de partes importantes, como o hipocampo, área da memória.
Exemplo simples
Pense no cérebro como uma cidade em construção. Se faltam tijolos (nutrientes), algumas ruas (conexões) não ficam prontas. Depois é mais caro e difícil consertar.
Primeiros anos: sinais que aparecem

Crianças de mães que passaram fome na gravidez podem ter:
- QI até 8 pontos menor aos 7 anos.
- Mais dificuldade de atenção e controle das emoções.
- Maior risco de infecções e cansaço fácil.
Efeito dominó na família
Se a avó passou fome, o neto também pode sentir. Isso acontece porque as “etiquetas químicas” nos genes podem durar por gerações.
Como quebrar o ciclo?
Cuidar antes e durante a gravidez
- Suplementos de ácido fólico, ferro e iodo reduzem atrasos de linguagem em até 20%.
- Programas comunitários que distribuem vitaminas e fazem visitas em casa melhoram o desenvolvimento cerebral até os 4 anos.
Investir na saúde mental da mãe
Depressão pós-parto é mais comum quando falta comida. Combinar ômega-3, terapia breve e grupos de apoio reduz atrasos de fala em cerca de 30%.
A força das políticas públicas
Fortificar alimentos básicos, oferecer auxílio financeiro e ensinar sobre nutrição funcionam juntos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, “nutrir a mãe é investir no cérebro do neto”.
Perguntas comuns
“Só tomar vitaminas resolve?”
Não. A mãe precisa de comida variada, apoio emocional e acompanhamento de saúde.
“E se eu já estou grávida?”
Ainda dá tempo! Procure o posto de saúde mais perto, peça orientação e suplementos.
“Homens também contam?”
Sim. Pais bem nutridos ajudam na renda, no cuidado e no exemplo de boa alimentação.
Mitos e verdades
- Mito: “Gestante deve comer por dois.”
Verdade: A mãe precisa de qualidade, não de quantidade extra sem orientação. - Mito: “Desnutrição só afeta o peso do bebê.”
Verdade: Afeta cérebro, imunidade e até o aprendizado no futuro.
Conclusão

Alimentar bem a gestante é cuidar do presente e do futuro da família. Com vitaminas, comida de verdade e apoio emocional, quebramos o ciclo da fome e abrimos caminho para crianças mais felizes e inteligentes. Lembre-se: crescer com saúde é mais legal!
Referências
- Bhutta, Z. A. et al. Evidence-based interventions for improvement of maternal and child nutrition: what can be done and at what cost? The Lancet, v. 382, n. 9890, p. 452-477, 2013.
- Black, R. E. et al. Maternal and child undernutrition and overweight in low-income and middle-income countries.The Lancet, v. 382, n. 9890, p. 427-451, 2013.
- Gluckman, P. D.; Hanson, M. A. Developmental origins of disease paradigm: a mechanistic and evolutionary perspective. Pediatric Research, v. 56, n. 3, p. 311-317, 2004.
- Grantham-McGregor, S.; Baker-Henningham, H. Reviewing the evidence on the effectiveness of early child development programmes in low- and middle-income countries. Early Child Development and Care, v. 190, n. 6, p. 733-748, 2020.
- Heijmans, B. T. et al. Persistent epigenetic differences associated with prenatal exposure to famine in humans.PNAS, v. 105, n. 44, p. 17046-17049, 2008.
- Martin, C. L. et al. Prenatal undernutrition and brain structure: a neuroimaging review. NeuroImage: Clinical, v. 36, 102222, 2022.
- Monteiro, C. A. et al. Desigualdades na introdução de alimentos complementares no Brasil: análise das PNDS 2006 e ENANI 2019. Revista de Saúde Pública, v. 55, 2021.
- Ranjan, A.; Bhatia, V. Intergenerational benefits of maternal nutrition interventions: a narrative review. Nutrition Reviews, v. 77, n. 10, p. 748-762, 2019.
- Rahal, R. M. et al. Food insecurity and maternal mental disorders in a Brazilian birth cohort. Journal of Affective Disorders, v. 235, p. 52-59, 2018.
- Santos, M. P. et al. Impacto de um programa comunitário de nutrição e estimulação precoce no desenvolvimento infantil. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, n. 4, 2022.
- Stein, A. et al. Effects of perinatal interventions on maternal mental health and child development: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Psychiatry, v. 7, n. 7, p. 593-607, 2020.
- Waterland, R. A.; Michels, K. B. Epigenetic epidemiology of the developmental origins hypothesis. Annual Review of Nutrition, v. 27, p. 363-388, 2007.
- World Health Organization. State of food security and nutrition in the world 2021. Geneva, 2021.