Políticas públicas: ações que barram o avanço do fígado gorduroso infantil
Conheça iniciativas no Brasil e no mundo que reduzem o consumo de açúcar e aprenda por que ações coletivas fazem diferença na proteção infantil.

Você sabia que o excesso de açúcar e gordura nos alimentos pode deixar o fígado das crianças doente? Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que informação clara salva vidas. Vamos mostrar como leis simples, como selos de alerta e impostos em refrigerantes, já estão protegendo milhões de pequenos pelo mundo — e como isso pode acontecer no Brasil também.
O problema: fígado gorduroso infantil
O fígado é a “fábrica” do nosso corpo. Quando a criança bebe muito refrigerante ou come muitos biscoitos recheados, essa fábrica recebe açúcar demais. O açúcar vira gordura, que se acumula no fígado. Esse quadro chama-se fígado gorduroso infantil ou esteatose hepática pediátrica.
O que o mundo já fez
Selos de alerta no Chile
Desde 2016, produtos com muito açúcar, sal ou gordura recebem selos pretos na frente da embalagem. Em dois anos, as compras de cereais açucarados caíram 24%. Quando a informação fica grande e clara, o pai e a mãe mudam a escolha na hora.
Imposto no refrigerante no México
O México cobra 1 peso por litro de refrigerante desde 2014. O consumo caiu 7,6% no primeiro ano, principalmente entre famílias com menos dinheiro. Menos refrigerante significa menos açúcar líquido, aquele que o fígado transforma rápido em gordura.
Reino Unido: imposto escalonado
Em 2018, o Reino Unido criou um imposto maior para bebidas com mais açúcar. Resultado: entre 2015 e 2019 o açúcar médio nos refrigerantes caiu 29%. A indústria mudou a receita para escapar da taxa — e as crianças ganharam um produto menos doce.
Recomendações da OMS
A Organização Mundial da Saúde indica oito ações para proteger a alimentação infantil, como limitar propaganda em horário nobre e tirar personagens de pacotes cheios de açúcar. Tudo isso é visto como barato e eficiente contra o fígado gorduroso na infância.
Brasil: o que está em debate

Selos em forma de lupa
A Anvisa aprovou em 2020 um símbolo de lupa que avisa quando o alimento tem muito açúcar, sal ou gordura. O selo começa a valer em 2024. Um estudo prevê queda de 12% na compra de produtos doces por famílias com crianças de 5 a 10 anos.
Taxa nos refrigerantes
Um projeto de lei quer cobrar mais imposto de bebidas que tenham acima de 8 g de açúcar por 100 ml, parecido com o modelo britânico. A estimativa é arrecadar R$ 4,7 bilhões por ano. Cada real gasto na prevenção economiza R$ 3,20 em internações futuras.
Propaganda infantil
Pesquisas mostram que 86% dos comerciais de comida exibidos na TV aberta até 21h são voltados a crianças, e 74% anunciam ultraprocessados. Hoje o Conar faz apenas autorregulação voluntária. Organizações de saúde pedem uma lei federal com fiscalização on-line.
Mais comida de verdade
Cidades como Belo Horizonte criaram hortas escolares e vale-feira para famílias. Em cinco anos, o consumo diário de frutas e verduras subiu 18% e as medidas do fígado das crianças melhoraram. Alimento fresco precisa ser fácil e barato.
Desafios e próximos passos
Resistência da indústria
Entre 2020 e 2022, fabricantes de bebidas gastaram R$ 62 milhões em campanhas contra impostos. Mas estudos mostram que quem mais reduz o consumo quando o preço sobe são os que bebem mais refrigerante, não os mais pobres.
Estratégia gradual
Especialistas sugerem começar com imposto de 10%, usar parte do dinheiro para baratear frutas e legumes e explicar, em campanhas, o elo entre refrigerante e fígado gorduroso.
Trabalho em equipe
Saúde, Educação, Agricultura e Economia precisam andar juntas. O Conselho Nacional de Saúde propôs um comitê para alinhar metas e ações. Experiências lá fora provam que, quando há metas de reduzir açúcar, os casos de fígado gorduroso infantil caem em cinco anos.
O que você pode fazer hoje
- Olhar os rótulos: escolha produtos sem selo de alerta.
- Trocar refrigerante por água ou suco natural sem açúcar.
- Oferecer frutas e verduras todos os dias.
- Limitar o tempo de tela e conversar sobre propaganda.
- Cobrar de escolas e governo políticas que ajudem a alimentação saudável.
Conclusão

Proteger o fígado das crianças é possível e começa com escolhas simples em casa e leis inteligentes na sociedade. Selos, impostos justos e menos propaganda enganosa já provaram que funcionam. Juntos, famílias, escolas e governo podem garantir um futuro com mais saúde. Crescer com saúde é mais legal!
Referências
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- Transparência Brasil. Financiamento político da indústria de bebidas açucaradas: 2018-2022. São Paulo; 2023.
- Intervox. Digital Influencer Market Report. São Paulo; 2022.
- Conselho Nacional de Saúde. Recomendação nº 014, de 15 de junho de 2021. Brasília; 2021.