Primeiro remédio sozinho: o dia em que o cuidado muda de mãos
Descubra por que o primeiro remédio tomado sozinho é um marco de crescimento. Dicas para pais, professores e profissionais que acompanham essa fase.

Você já viu seu filho querendo fazer tudo sem ajuda? Isso inclui tomar o próprio remédio. Aqui no Clube da Saúde Infantil, mostramos de forma simples como essa autonomia pode ser positiva, quais desafios aparecem e como pais, médicos e professores podem apoiar o processo.
O que é autonomia medicamentosa
Autonomia medicamentosa é quando o adolescente aprende a cuidar do remédio sozinho: lembrar do horário, entender a função do medicamento e saber o que fazer em caso de esquecimento. É um passo importante, como aprender a andar de bicicleta sem rodinhas — exige preparo e confiança.
Por que assumir o remédio ajuda o adolescente
Mais autoestima e controle
Pesquisas mostram que, quando o jovem se sente capaz de cuidar do tratamento, ele ganha confiança e sente que domina a própria condição de saúde. Essa autopercepção reduz a dependência emocional e aumenta a responsabilidade.
A curva em “U” da adesão
No início, os pais controlam tudo e a adesão é alta. Depois, na fase de busca por independência, a adesão costuma cair. Com o apoio certo, volta a subir. É como uma gangorra: equilíbrio é a chave.
Desafios comuns
Ansiedade e culpa
Quando a responsabilidade vem cedo demais, o adolescente pode se sentir ansioso ou culpado se errar, especialmente em doenças que exigem vigilância constante, como o diabetes.
Medo de parecer frágil
Tomar remédio na frente dos colegas pode gerar vergonha. Muitos jovens escondem o tratamento por medo de parecer “fracos” ou “diferentes”. O apoio de adultos e amigos ajuda a quebrar esse estigma.
Estratégias que funcionam

Método READY
Em cada consulta, o profissional pergunta sobre Rotina, Entendimento, Atitude, Decisão e You (autochecagem). Pequenas metas — como programar o próprio alarme — fortalecem a autoconfiança e a capacidade de autocuidado.
Entrevista motivacional
Uma conversa aberta, que escuta e reformula, transforma “Não quero tomar remédio” em “Quero energia para jogar bola”. Essa técnica aumenta a adesão ao tratamento em diversas doenças crônicas.
Força do grupo de pares
Participar de grupos presenciais ou fóruns moderados permite que o adolescente compartilhe desafios e estratégias. Saber que “não está sozinho” reduz a resistência e o sentimento de isolamento.
Papel da família
Pais que equilibram carinho com limites claros ajudam mais do que aqueles muito rígidos ou permissivos. Contratos simples, por escrito, definindo “quem faz o quê”, são úteis para manter a responsabilidade compartilhada.
Tecnologia amiga
Aplicativos com lembretes, jogos e recompensas transformam a rotina de medicação em algo lúdico e positivo. O uso constante desses recursos aumenta a regularidade no tratamento.
Dicas rápidas para pais e cuidadores
- Comece devagar: deixe o jovem controlar apenas uma dose por semana.
- Use lembretes visuais, como post-its ou quadros coloridos.
- Converse sobre vergonha ou medo de tomar remédio na escola.
- Faça revisões com o médico para ajustar metas e horários.
- Comemore cada avanço — reforço positivo é essencial.
Perguntas frequentes
E se meu filho esquecer a dose?
Siga a orientação médica. Em geral, tome assim que lembrar, mas nunca dobre a dose sem autorização.
Meu filho não quer falar do assunto. O que faço?
Use o modelo da entrevista motivacional: escute primeiro, pergunte depois. Mostrar interesse genuíno vale mais do que insistir.
Tecnologia substitui o acompanhamento dos pais?
Não. Aplicativos ajudam, mas o suporte emocional e a supervisão familiar continuam fundamentais.
Conclusão

Ajudar o adolescente a cuidar do próprio remédio é como soltar a mão aos poucos: ele sente orgulho, aprende a planejar o dia e fica mais seguro. Com apoio da família, dos profissionais e da tecnologia, a transição vira um trampolim para a vida adulta.
Aqui no Clube da Saúde Infantil, acreditamos que crescer com saúde é mais legal!
Referências
- Rieger H, Palacios J. Developmental trajectories in adolescent self-care. Journal of Adolescent Health. 2021;68(4):567–574.
- National Academies of Sciences. Promoting positive adolescent health behaviors. Washington, DC: NAS; 2020.
- Steinberg L. Adolescence. 11th ed. New York: McGraw-Hill; 2019.
- Holmes C et al. Adherence patterns in chronic illness: a U-shaped curve. Pediatrics. 2021;147(2):e20201635.
- La Greca AM, Becker D. Diabetes stress in youth. Journal of Pediatric Psychology. 2020;45(5):556–565.
- Bush A, Fleming L. Adolescent asthma adherence. European Respiratory Review. 2020;29(155):200159.
- Joinson C et al. Medication stigma in chronic illness. Chronic Illness. 2021;17(1):3–15.
- Graham F et al. Device burden in insulin pump therapy. Diabetic Medicine. 2020;37(10):1650–1658.
- Murray M, Hamilton K. Psychoeducational interventions for youth with chronic disease. Health Psychology. 2020;39(12):1040–1050.
- Morse R, Richardson C. READY assessment tool for adolescent self-management. Clinical Pediatrics. 2020;59(9–10):828–835.
- Banda M et al. Self-efficacy and medication adherence pathways. Patient Education and Counseling. 2021;104(4):892–898.
- Masters A, Zoehrer M. Motivational interviewing with adolescents. Pediatric Clinics of North America. 2020;67(5):667–681.
- Helms C et al. Motivational interviewing in cystic fibrosis care. Journal of Cystic Fibrosis. 2020;19(3):431–437.
- Wong T, Pfeiffer S. Peer support platforms and chronic illness. Digital Health. 2021;7:20552076211018782.
- Li X, Rose M. Parenting styles and adherence among adolescents. Journal of Family Psychology. 2020;34(2):179–189.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia prático de transição no cuidado de doenças crônicas. Rio de Janeiro: SBP; 2022.
- González R et al. Gamified app for epilepsy adherence. Epilepsy & Behavior. 2021;115:107684.
- Casey BJ, Jones RM. Neurobiology of the adolescent brain. Neuroscience and Biobehavioral Reviews. 2016;70:179–187.
- Ministero della Salute. Manuale di transizione dell’assistenza pediatrica. Roma: Governo Italiano; 2019.