Da recusa ao prazer: o que ajuda a criança a confiar no próprio paladar
Descubra como transformar a relação da criança com a comida, respeitando seu tempo e estimulando o prazer de provar alimentos diferentes.

Seu filho fecha a boca só de ver um legume? Calma! A seletividade alimentar é comum entre 18 meses e 6 anos. Aqui no Clube da Saúde Infantil, trazemos um passo a passo simples, baseado em estudos, para transformar “não gosto” em “quero experimentar”.
O que é seletividade alimentar
A seletividade, ou “picky eating”, acontece quando a criança recusa sempre certos alimentos, cores ou texturas. Isso pode reduzir vitaminas e minerais essenciais para o crescimento e o aprendizado.
Por que acontece
- Proteção natural: na fase de neofobia, novos sabores parecem perigosos.
- Sensibilidade aos sentidos: cheiro, cor ou textura podem causar desconforto.
- Experiências negativas: pressão ou brigas à mesa aumentam o medo e a rejeição.
Quando ligar o alerta
Procure ajuda profissional se a criança apresentar sinais como:
- peso parado ou perda de peso;
- aceitação de menos de 20 alimentos;
- choros ou ansiedade na hora das refeições;
- dores, refluxo ou enjoo frequentes.
O ideal é contar com uma equipe formada por pediatra, nutricionista e psicólogo para avaliar o caso e orientar o tratamento.
10 dicas simples para o dia a dia

1. Exposição sem pressão
Apresente porções bem pequenas, como um grão de feijão, várias vezes. Elogie o esforço de provar, mas nunca force.
2. Divisão de responsabilidades
O adulto decide o que e quando servir; a criança decide quanto comer. Isso reduz discussões e estimula autonomia.
3. Ambiente calmo
Desligue TV e celular. Luz natural e tranquilidade ajudam o cérebro a focar no sabor e na textura dos alimentos.
4. Coma junto
Quando os adultos comem verduras e frutas à mesa, as crianças tendem a copiar o comportamento.
5. Prato colorido e lúdico
Use cortadores divertidos, como estrelas de cenoura, ou caixas tipo bentô box para separar texturas e cores.
6. Conte histórias
Transforme o alimento em personagem: “o brócolis é a árvore do dinossauro!”. A brincadeira aumenta o interesse e reduz a resistência.
7. Cozinhe em família
Lavar frutas ou mexer a massa cria senso de participação. A criança se sente orgulhosa e mais disposta a provar o que ajudou a preparar.
8. Passaporte do paladar
Crie uma cartela de adesivos: cada nova mordida vale um ponto. É uma forma leve de reforçar o progresso sem usar doces como prêmio.
9. Respeite o ritmo
Cada criança tem seu tempo. O cérebro precisa reconhecer o alimento como seguro antes de aceitar novas texturas e sabores.
10. Observe sinais do corpo
Problemas como refluxo, constipação ou dor abdominal podem piorar a recusa alimentar. Trate o desconforto antes de insistir nas mudanças.
Desfazendo mitos comuns
- “É birra.” Na verdade, é uma defesa natural do corpo infantil.
- “Se só come junk food, é culpa dos pais.” O ambiente influencia, mas fatores genéticos também pesam.
- “Se ficar com fome, vai comer.” Isso pode gerar ansiedade e piorar o comportamento à mesa.
Conclusão

Com paciência, ambiente calmo e criatividade, a hora da refeição pode se tornar um momento de descoberta. Lembre-se: cada mordida é um passo importante. E crescer com saúde é mais legal!
Referências
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