Crianças encontram apoio na psicoterapia para enfrentar medos do tratamento

Conheça sinais de alerta do trauma médico infantil e saiba como a psicoterapia oferece suporte para tornar o tratamento mais leve e acolhedor.

Hospital, agulhas, exames… Para muitas crianças com doenças crônicas, esses momentos viram lembranças de medo. Esse medo, quando forte e repetido, é chamado de trauma médico. A psicoterapia focada no trauma pode transformar essa experiência e ajudar a criança a crescer com mais confiança e saúde.

O que é trauma médico?

Trauma médico é um medo intenso que surge após procedimentos dolorosos ou longas internações. Ele pode ocorrer em até três de cada dez crianças com câncer, diabetes tipo 1, doença renal ou outras condições crônicas.

Sinais de alerta

  • Reviver o exame mentalmente como se fosse um filme ruim.
  • Sentir medo ou ficar em alerta diante de jalecos ou cheiro de álcool.
  • Querer evitar consultas e exames.
  • Crianças menores podem voltar a fazer xixi na cama ou ter dor de barriga sem causa médica.
  • Pré-adolescentes podem apresentar irritação, isolamento e preocupação excessiva com o futuro.

Por que tratar o trauma é importante?

Quando o medo domina, a criança falta às consultas, evita remédios e compromete o tratamento da doença crônica. Tratar o trauma não é luxo: é requisito para que qualquer remédio funcione.

Como a psicoterapia focada no trauma ajuda

A terapia cognitivo-comportamental focada no trauma (TCC-T) é a mais estudada. Em oito a doze sessões, ela pode:

  • Reduzir sintomas de trauma em cerca de 40%.
  • Aumentar a adesão ao tratamento, como o uso regular de insulina, em 25%.

Passos usados na TCC-T

  1. Psychoeducação: explicar que sentir medo é normal e que o corpo reage ao estresse.
  2. Exposição gradual: aproximar-se aos poucos de estímulos médicos, como cheiro de álcool ou imagens de hospital.
  3. Reestruturação de pensamentos: trocar ideias negativas por interpretações mais realistas e controláveis.

Outras técnicas úteis

  • EMDR: movimentos oculares que ajudam a processar memórias difíceis, útil após internações frequentes.
  • Ludoterapia e narrativas: brincar e contar histórias ajudam crianças menores a compreender a experiência vivida.

Papel da família e da equipe de saúde

O que os pais podem fazer

  • Evitar frases assustadoras, como “você quase morreu”.
  • Oferecer escolhas simples, como “qual braço prefere para a injeção?”.
  • Participar das sessões quando convidados.

O que médicos e enfermeiros podem fazer

  • Explicar cada procedimento de forma clara e passo a passo.
  • Usar analgesia e distração em punções venosas, o que reduz o choro antecipatório em até 35%.

Desafios e soluções no Brasil

O SUS ainda conta com poucos psicólogos pediátricos, e as filas podem passar de seis meses. Algumas estratégias já aplicadas incluem:

  • Treinar residentes para aplicar testes de triagem rápida, como o CATS-2.
  • Criar grupos breves de orientação para pais.
  • Oferecer telepsicoterapia, que mostrou eficácia semelhante à da terapia presencial, com menos faltas.

Quando procurar ajuda?

Se o medo atrapalha exames ou a vida diária da criança por mais de um mês, converse com o pediatra e peça encaminhamento para psicoterapia focada no trauma. Quanto antes iniciar o tratamento, melhores os resultados.

Perguntas frequentes

Meu filho chorou na última coleta de sangue. Isso é trauma?

Chorar uma vez é normal. Trauma é quando o medo persiste e interfere no tratamento.

A terapia pode trazer lembranças ruins?

Sim, mas de forma controlada e segura. Esse processo é necessário para que o cérebro compreenda que o perigo já passou.

Teleterapia funciona?

Estudos brasileiros mostram que a versão online é tão eficaz quanto a presencial.

Conclusão

O trauma médico não precisa ser um obstáculo para o tratamento de doenças crônicas. A psicoterapia focada no trauma, associada ao apoio da família e da equipe de saúde, pode transformar o medo em confiança. Entender o problema é o primeiro passo para superá-lo. Crescer com saúde é mais legal.


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